sexta-feira, 11 de julho de 2008

CC 115 - O dia "D" da Operação Viriato

A Operação Viriato, cujo objectivo foi abrir os itinerários conducentes a Nambuangongo, ocupar esta vila e garantir o livre trânsito nos referidos itinerários, foi certamente a operação mais complexa de toda a campanha militar em Angola. Nela foram empenhadas forças muito significativas de infantaria, cavalaria, artilharia e força aérea, e mais tarde pàra quedistas.
A operação desenvolveu-se em vários tempos, durante cerca de dez meses, e contemplou várias sub-operações localizadas em sub-regiões do grande teatro de operações que eram os DEMBOS, (Sector 3 da Zona de Intervenção Norte).
Se bem que na sua concepção e execução se tenha verificado uma certa unidade e uniformização das acções conducentes à conquista dos objectivos almejados, as unidades autónomas tiveram diferentes dias "D" e diferentes objectivos intermédios, condicionados pela natureza dos obstáculos que lhes iam surgindo e ainda e sobretudo da disponibilidade de material de guerra, nomeadamente material circulante, (viaturas).
Assim, enquanto a CC 158 a partir do Ambriz e o BC 96 a partir de Úcua, tiveram o seu dia "D" (início da operação), aí por 10 de Julho de 1961, o BC 114 só ficou realmente operacional em 11 de Julho do mesmo ano e só em 14 seguinte se tornou possível ultrapassar, com viaturas, o Rio Lifune a norte de Mabubas, cuja ponte fora totalmente destruída pelo In e agora reconstruída, em madeira, pela Companhia de Sapadores em reforço ao BC 114.
Constituição da Testa de Ponte
Nestas circunstâncias, em 11 de Julho de 1961, faz hoje precisamente 47 anos, a CC 116 deslocou-se, de madrugada, de Mabubas para Anapasso, em viaturas com luzes apagadas, aproveitando o crepúsculo do plenilúneo, (lua cheia), para manter o segredo da operação. Chegados ali, os militares transpuseram o rio Lifune, a pé e sobre os destroços da ponte destruída. Um Pelotão (+) ficou a garantir a segurança e defesa do local e a outra parte da CC 116 constituiu Testa de Ponte, indo instalar-se no morro denominado Kuanda Maúa, a cerca de 4/5 quilómetros de Anapasso.
Ali, ocupou e organizou o terreno tomando posição defensiva na crista militar com postos de vigilância e observação em todas as direcções, nomeadamente sobre a picada que leva a Quicabo, apesar das grandes dificuldades criadas pela densa floresta que contorna todo o morro.
Por volta do meio dia de 11, chegou a Anapasso a Companhia de Sapadores 123 (-) que deu imediato início às obras de construção de uma ponte em madeira, apoiada nos tramos de alvenaria, caídos no leito do rio.
Em 14 passaram as primeiras viaturas de sul para norte pela ponte reconstruída em madeira.
Neste tempo, ou seja de 11 a 14 de Julho de 1961, a CC 115 fazia os últimos aprontos no Caxito, recebendo as últimas viaturas, que foram atribuídas aos respectivos condutores, sem qualquer treino para conhecimento das mesmas.
O Inimigo e o segredo militar
"O Segredo é a alma do negócio", diz o povo, e na guerra o factor surpresa é fundamental para o êxito das operações militares! Por mais cautelas que se tenham tomado nesse sentido, o segredo foi quebrado e o inimigo deu disso provas, nomeadamente num documento mais tarde encontrado e que, pelo seu valor histórico, vou transcrever:
Carta dirigida pelo Comandante da UPA de QUIPEDRO, (ANTÓNIO TIAGO CALEIA), ao Comandante da UPA de QUICABO, datada de 07JUL61
"Antes de mais nada espero que esta cartinha lhes encontre de boa saúde na companhia de vossas famílias. Nós cá graças a Deus estamos regulares e sempre temos pensado em vós.
Quero dizer-vos que neste mesmo dia às oito horas da noite apanhamos na Emissora Oficial isto é na Rádio onde os nossos inimigos faziam os seus discursos de contentamento e indicavam o lugar onde se encontram que é o rio Lifune, onde eles tentam avançar para o Norte inteiro.
Eles trabalham dia e noite arranjando a ponte do Lifune para poderem vir até aqui. Por isso quero dizer para vós não estarem cansados, mas sim devem fazer grandes buracos pelo caminho e cobri-los com coisas finas e por cima dos buracos com um pouco de barro para quando eles passarem cairen nesses buracos. Mas espero que usem de coragem para estes nossos inimigos não poderem vencer aquilo.
Tenhan coragem e tenham fé em Deus porque Este é o nosso Ajudador. Conforme diz a notícia da Radio, os nossos inimigos querem avançar para o Norte em direcção de Quicabo porque dizem eles que nesta região é onde se encontram os terroristas mais bravos.
Por isso irmãos espero que se mantenham bem firmes para o bom andamento do nosso trabalho.
Eles estão procurando os lugares mais fortes para depois de tomados fazerem daquilo que eles bem entenderem. Mas nós não o consentiremos. Meus irmãos tenhamos coragem e devemos estar bem unidos para vencermos este nosso inimigo facínoro.
Se Deus quiser quando receber o material hei de enviá-lo com urgência. Por aqui espero terminar com os meus cumprimentos."
Nota - Esta carta merece-me três comentários:
  1. É de salientar a correcção da escrita revelando uma erudição avançada, nessa matéria;
  2. A grande preocupação da UPA pelo avanço da tropa Portuguesa pelo eixo Lifune-Quicabo;
  3. A Emissora Oficial com a sua preocupação de levantar o moral das populações estava a dar cartas ao inimigo, nomeadamente revelando a reconstrução da ponte, que nessa data ainda estava em projecto.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

CC 115 - A CC 115 e a UPA

Documentos referentes aos dias quentes de 15 de Março1961 e à organização da UPA (União dos Povos de Angola), apreendidos durante as operações, posteriormente efectuadas. Colaboração do Subintendente Manuel Valadas Horta.
Nota: Faça clik sobre as imagens para aumentar o zoom.







segunda-feira, 7 de julho de 2008

CC 115 - Caxito (Zona de Reunião)-I

O tempo urge e a preparação imediata para a intervenção operacional exige actividade permanente do pessoal. Nesse sentido, à patrulha do 3º Pelotão ontem a Anapasso, seguiu-se hoje uma saída de toda a Companhia para o mato, em deslocamento apeado, com permanência durante a noite naquele ambiente desconhecido e com regresso ao acantonamento no dia seguinte. Aí, os inimigos foram os mosquitos, além de todos os ruídos nocturnos que se ouvem na selva africana durante a noite, desde os produzidos por macacos desavindos, até aos dos necrófagos mais atrevidos. Nos deslocamentos nocturnos, ainda a ligação entre os elementos das patrulhas são mais difíceis de conseguir: se de dia era impossível manter as formações de combate, devido à densidade da vegetação, como já referi, de noite era mesmo impossível qualquer deslocamento por desconhecimento total do ambiente e não haver pontos de referência conhecidos nem cartas topográficas.
Por isso a noite foi passada num ponto estratégico que permitia uma boa defesa periférica e ali esperámos que amanhecesse.
No dia seguinte, pelas nove horas, estava a Companhia de regresso ao acantonamento, sem qualquer incidente.

domingo, 6 de julho de 2008

CC 115 - Ponte do Lifune


Mapa da região Mabubas-Anapasso: A picada, hoje nítida, não se veria nestas circunstâncias, se houvesse google em 1961.

Primeira Patrulha de Reconhecimento à Ponte de Anapasso


Faz hoje precisamente 47 anos! Os preparativos para dar início à Operação Viriato exigiam a reconstrução da ponte destruìda pelo In em Anapasso, sobre o Rio Lifune.

De Mabubas para norte pela picada que conduz a Quicabo, há mais de três meses que ninguém se atrevia a passar, o que permitiu aos elementos da UPA destruir a ponte sobre o Rio Lifune, uma obra de arte de algum vulto uma vez que o rio ali já é bastante largo.

O 3º Pelotão da CC 115, comandado por NOCA, (Nobre Campos), reforçado com uma secção de sapadores, recebeu a missão de explorar e abrir a picada até Anapasso, escoltando o Engenheiro, Tenente Varela, este para analisar e projectar a reconstrução da Ponte.

Anapasso dista cerca de 18 kilómetros de Mabubas. A picada tinha um piso relativamente bom, mas o capim crescera muito e, em alguns troços já não se via a picada. Lá íamos apalpando o terreno e avançando devagar. Havia várias abatizes, (árvores atravessadas na picada para impedir a passagem de viaturas), que se foram removendo com alguma facilidade por serem de pequeno porte, uma vez que a mata naquela região é de tipo savana com grandes embondeiros dispersos, mas esses não são práticos para fazer abatizes.

Chegada a Anapasso a Patrulha deparou com a Ponte completamente destruída: dos seus dois tramos maiores um estava no leito do rio e o outro desprendera-se de um dos apoios, ruindo também. Os destroços da ponte permitiam a passagem a pé de uma margem para outra.
A destruição da ponte fora conseguida por meio de água e fogo, ou melhor, fogo e água: fizeram grandes fogueiras sobre o taboleiro da ponte e de seguida, lançaram água, provocando a fractura e deslocamentos da estrutura de cimento. Havia vestígios dos materiais utilizados nesse sentido.

Próximo da ponte e na margem esquerda do rio o In erguera uma grande tabuleta constiuída por duas grandes tábuas, com os dizeres :"DAQUI PARA DIANTE NÃO PASSA PÉ DE BRANCO" e " TUDO O QUE PASSA MORRE".

Enquanto uma parte da força mantinha a segurança periférica para permitir ao Engenheiro Varela fazer as suas análises e estudos da obra de arte, outra parte dedicou-se à exploração dos arredores, dando de imediato com uma Fazenda, denominada de "Maria Amélia" e que consistia num imenso pomar de laranjeiras, com fruta capaz de ser colhida. Isto foi motivo de regozijo e, dada a escassez de meios disponíveis, fez-se uma boa colheita que muito alegrou depois o vago-mestre da Companhia.

Ao fim do dia, cumprida a missão, o 3º Pelotão da CC 115 regressou ao acantonamento, no Caxito.

sábado, 5 de julho de 2008

CC 115 - BEM A PROPÓSITO

Recebi do Camarada VALHOR um simpático e interessante e-mail que não resisto a publicar aqui:
"O trabalho de qualidade continua!Nada será como dantes (novo quartel em Abrantes!!!...)
-Dos nossos companheiros 115 "rien du tout" Empregamos o nosso "latim" em vão. Dicas: 0 (zero)
Nem sequer o tio Sam (Bento), nem os outros sobrinhos... Não se lembram de quem trabalha!!! Estão numa fase de inibição progressiva...Pelo menos que incentivassem com umas tretas quaisquer... que dissessem Amen! Que: Sim Senhor..."Tal e qual se passou... para dar força...mas (rien de rien)
Nem ........., nem .......... Afinal o que é feito deles?Não admira que os "Miquelina" tenham apanhado o tecido todo e terem cortado por onde muito bem entenderam!!!Enfin!Dia, após dia, a obra vai crescendo!Um abraçoValhor"

quinta-feira, 3 de julho de 2008

CC 115 - Caxito (Zona de Reunião)


MAPA DA REGIÃO CAXITO-MABUBAS
Terminada a prè preparação em Luanda e ainda com grandes carências de material, a CC 115 , integrando o BC 114, deslocou-se em 26 de Junho de 1961 para o Caxito, onde se acantonou num edifício já velho, que poderia ter sido uma casa "senhorial" de quinta, ou mesmo um edifício público com alguma notoriedade, isto é, era relativamente grande, mas em muito mau estado.
Os dias que se seguiram, foram de continuação da preparação com vista à intervenção operacional e ao mesmo tempo os afazeres próprios de tropa em campanha, em subunidades autónomas, com órgãos próprios para satisfazer as necessidades imediatas: alimentação, higiene, descanso e defesa da subunidade.



Durante o descanso o pessoal dedicava-se a descascar a batata para a refeição seguinte.


Com o Cabo cozinheiro (Cunha, salvo erro), e dois ajudantes de cozinheiro.
Na retaguarda vê-se o aspeto das instalações/barracões a que me referi acima.




Aqui, no Caxito ainda havia estes tanques para lavar a roupa, depois o problema será mais complicado.


Aspecto da vida social no Caxito. Uma família de alfaiates/Costureiros.


Uma Rua de bairro no Caxito: mistura de casa portuguesa, ao fundo e casas indígenas, em
primeiro plano.
Este personagem é, ou era, o José Correia de Almeida Ferreira, Prof Aux da Missão Católica.

INSTRUÇÃO E PRIMEIRO CONTACTO COM O MATO
Ali permanecemos dezassete dias, ocupando o tempo em patrulhamentos na região, para conhecimento e adaptação ao mato, bem como para reconhecimento e contactos com as populações. Os primeiros exercícios e tentativas de pôr em prática os conhecimentos teóricos adquiridos para reacção às emboscadas revelaram-se um desastre: a limpeza do terreno com formações em linha, como nos haviam dito era de todo impossível.

A densidade da vegetação era tal, que, a dois metros de distância, em pleno dia, era impossível ver o camarada do lado. Uma única formação táctica se mostrou possível: a "bicha do pirilau", isto é, a coluna por um e sempre em ligação visual.


Uma imagem vale mais que mil palavras: as fotos que antecedem dão a verdadeira imagem das dificuldades de progressão encontradas pelos militares - o capim atinge os três metros de altura e cresce por todo o lado, de modo que as picadas são invadidas por essa praga que as faz desaparecer, desde que não sejam limpas atempadamente e com frequência.
O grande inimigo aqui no Caxito eram os mosquitos. A zona tem muitas palmeiras e canais de rega para o palmar e canavial de açúcar da fazenda Tentativa, pelo que o aparecimento dos mosquitos é fatal, acrescendo ainda o calor tropical que caracteriza a região.

terça-feira, 1 de julho de 2008

CC 115 - Operação Viriato (Continuação)

A GUERRA COLONIAL... vista de dentro - I
Os escritos aqui inseridos são relatos do Senhor Coronel Libânio Pontes Miquelina, em entrevista ao jornal "Correio da Manhã" acontecida em 2007.
------------ Relatos do ex-Alferes Libânio Pontes Miquelina, da Compª. 105 do BCAÇ 96, que viveu directamente, na frente, a Guerra Colonial em Angola, pois o seu Batalhão foi o primeiro a entrar em Nambuagongo, em Agosto de 1961:* "Os combates eram duros e muito feios!" - recorda o Alferes Libânio. "Com o êxito da 'Operação Viriato', a primeira de grande dimensão nas Campanhas de África, acabou-se com o 'santuário da UPA', onde os independentistas se consideravam inexpugnáveis, apesar de alguns aviões da Força Aérea Portuguesa irem lá, de quando em quando, despejar umas bombas."* "A partir de um morro rodeado de matas diabólicas, com as picadas que lá conduziam obstruídas por árvores e muitas valas, a UPA lançava ataques a povoações próximas e mantinha sob ameaça cidades mais distantes, como Carmona, Ambriz e até mesmo Luanda. Para o Comando Militar português destruír a base tornou-se decisivo e não teve dúvidas em montar uma operação de envergadura."* " Por três itinerários diferentes, outras tantas forças militares receberam ordens para chegar a Nambuagongo. O Batalhão de Caçadores 114, comandado pelo Ten Cor. Henrique de Oliveira Rodrigues, foi o único que não conseguiu lá chegar. E o '96', do Ten. Cor. Armando Maçanita, foi o primeiro a atingir o objectivo, tendo à frente a Companhia 103 dos Alferes Santana Pereira, já falecido, e Casimiro, que também morreu em campanha."- O Coronel Libânio Miquelina teve o seu baptismo de fogo a 10 de Junho de 1961, na tomada da Pedra Verde.* " Ficámos um pouco para trás, por causa de um avião Broussard, atingido por uns tiros do inimigo e que, vendo a localidade ocupada por militares, decidiu aterrar na rua central de Muxalando, a uns 20 quilómetros de Nambuagongo. A caminhada que havia sido encetada rumo a este objectivo, durou mais de 20 dias de intensos combates, mas as dificuldades começaram numa ponte sobre o Dange, a 100 quilómetros do alvo. Quando chegámos à zona, tivemos de intervir rápido, porque descobrimos que o inimigo estava a tentar destruír a única ponte existente. Para isso faziam enormes fogueiras, com muitas árvores e ramos sobre o tabuleiro, lançando depois água para cima do mesmo para estalarem o cimento armado por efeito da mudança de temperaturas. Foi um ataque bastante difícil, porque eles já estavam armados com metralhadoras automáticas, além de "canhangulos e bazukas", enquanto no nosso Exército as melhores ferramentas para cavar abrigos eram as... baionetas das velhas espingardas Mauser. Deixei lá dois mortos e muitos feridos. "
* " Os ataques inimigos aconteciam de dia e de noite, ao meio-dia e ao meio da tarde, mas nunca se chegou ao corpo-a-corpo, de que muitas vezes se falava."
Publicada por rotivsaile em 21:02

Transcrevi acima o escrito publicado por "rotivsaile" no seu blog BATUQUES DO NEGAGE.
Porque ele refere o depoimento do Sr Coronel Miquelina, que merece algum reparo, embora seja esclarecedor do ambiente que se vivia na região dos Dembos:
Assim, estranha-se que dê tanto ênfase ao facto do BC 114 não ter chegado a Nambuangongo.
A esse propósito lembra-se que o BC 114 chegou a Luanda em 09 de Junho de 1961. No dia seguinte, 10 de Junho, como bem refere o Sr Coronel, foi o baptismo de fogo do BC 96, na região de Úcua. O dia "D" para o 96 foi portanto 10 de Junho.
Não na tomada da Pedra Verde porque tal não se verificou nessa altura, mas sim na tentativa de chegar à Pedra Verde. O BC 96 e agora sei, porque o afirma, que terá sido a Companhia do Sr Alferes Miquelina, não passou no sítio denominado "das correntes", porque ali foi travada pelo In, onde sofreu baixas e perdeu material de guerra, nomeadamente uma ML, como se soube na altura. O BC 96 não foi à Pedra Verde, nomeadamente a Quissacala que fica na base desse acidente orográfico, limitando-se a contornar por Pedra Boa, por estrada na altura alcatroada, seguiu rumo a Nambuangongo. A tomada da Pedra Verde verificou-se mais tarde, já depois de ocupada a vila de Nambuangongo, numa grande operação em que intervieram várias unidades, entre elas companhias de Pàras.
Tinha portanto o BC 96 um avanço, em tempo, relativamente ao BC 114, de mais de um mês, porque o BC 114 só ficou operacional em 11 de Julho, devido à falta de viaturas.
Mesmo assim, quando o BC 96 chegou a Nambuangongo, (Parabéns!), o BC 114 já andava por Beira Baixa, a cerca de 30 Km do objectivo e só o facto de já ter sido ocupado é que fez derivar a atenção operacional para outros objectivos, menos notórios, mas mais difíceis, como eram Canacassala e Quifula. Canacassala tinha seis mil homens recenseados, o que significa que a sua população total deveria rondar os quinze a vinte mil pessoas, agora refugiadas nas matas circundantes, onde serviam de apoio aos guerrilheiros.
Tambem diz o Sr "Alferes" Miquelina que, cito: "os ataques inimigos aconteciam de dia e de noite, ao meio-dia e ao meio da tarde, mas nunca se chegou ao corpo-a-corpo, de que muitas vezes se falava."
Sortudo o Sr Miquelina!!! Tomou a Pedra Verde e nunca entrou em luta corpo-a-corpo. Pois dir-lhe-ei que outros o fizeram, não na Pedra Verde, mas em KUANDA MAÚA, em 15 de Julho de 1961, como mais tarde referirei na primeira pessoa juntamente com outros companheiros de combate, que tenho a honra de contar entre os que comigo sobreviveram, pois ficaram no terreno seis mortos nossos e uma vintena de feridos. Felizmente não perdemos material de guerra para o inimigo e os danos que se verificaram, foram as baionetas das espingardas mauser dobradas, devido ao uso que se lhes deu. A guerra não é uma brincadeira!
Seria bom que não armássemos em heróis que não fomos. Todos fomos vítimas nos mesmos trabalhos.
O Santana Pereira e o Casimiro tiveram azar, como outros alferes que por lá ficaram. E que dizer dos outros mortos que não voltaram a ver os familiares?
Estes dois oficiais eram do quadro permanente, tal como o Sr Coronel Miquelina.
Eu não gosto de brincar com os militares, até porque tambem o sou, mas não resisto a lembrar aqui a definição de CORONEL que mais tarde, se estabeleceu no meio.
"CORONEL", é um alferes que não morreu!
Isto relativamente aos primeiros anos da guerra, em que operavam activamente em combate alguns oficiais do QP, porque, mais tarde passou a ser: um capitão que não morreu. E finalmente até os capitães eram milicianos, quase todos.
Mas enfim, não perdemos a guerra. Os políticos é que não souberam nem foram capazes de aproveitar o tempo de que dispuseram para resolver o problema com o mínimo de traumatismos.