Terminado o mini estágio em Lamego, no C.I.O.E., Centro de Instrução de Operações Especiais, os quadros do BC 114, separaram-se por companhias e cada grupo seguiu para a respectiva Unidade Mobilizadora. Voltariam a encontrar-se no momento do embarque, com destino a Angola, no dia 28 seguinte.
A mim e aos meus camaradas coube-nos seguir para Mafra, E.P.I., Escola Prática de Infantaria, onde fomos enquadrar uma Companhia de Caçadores, a CC 115, cujos elementos já vinham recebendo instrução de conjunto, com vista à mobilização.
De 10 a 17 de Maio, decorreu aquele primeiro contacto entre pessoas que jamais se haviam encontrado e que, agora, tem destino comum: construir uma amizade que os leve a, se necessário, dar a vida pelo camarada que está a seu lado. Dizia-se: dar a vida pela Pátria, mas parece mais adequado dar a vida pelo camarada ao lado, porque é com ele que se constitui equipa para vencer, ou melhor para não morrer. A Pátria, nem sempre se sabe muito bem o que é, e não é igual para todos.
Alguns camaradas tiveram mais dificuldade em adaptar-se às exigências da vida em comunidade militar e da instrução da Infantaria: os condutores auto, por exemplo, todos oriundos do Grupo de Companhias Trem-Auto, (Arma de Engenharia), fornecedora de condutores para as Altas Entidades do Estado, nomeadamente Generais; e os homens das Transmissões, agora na contingência de terem de transportar às costas os pesados ANGRC-9, para acompanharem as operações apeadas de Infantaria.
sábado, 10 de maio de 2008
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Mini Estágio em Lamego
De 4 a 9, ambos inclusivè, de Maio de 1961 decorreu em Lamego aquilo a que se poderia chamar: "A Apresentação da Guerra".
A Companhia de Caçadores Especiais, (vulgo, Rangers), ali criada e a que já me referi, exibia com alguma exuberância a sua preparação técnico-táctica para intervir em teatro de guerra subversiva e de guerrilha instalada, baseada em conhecimentos que os observadores militares portugueses haviam obtido na Guerra da Argélia.
Os cinco dias úteis de instrução a que os quadros do Batalhão de Caçadores 114 foram submetidos naquela unidade, não foram mais do que tomar conhecimento de uma nova maneira de abordar o fenómeno da guerra: Gustavo, Leopoldo, Napoleão, Eisenhauer, Montegomery e o próprio Romel, já foram. Quem dá cartas agora são os beduinos do deserto e sobretudo os Giaps no Vietnam.
Foi neste ambiente e com teorias destas que passámos o dia 4, assistindo a palestras e exibição de filmes a propósito.
O dia 5 foi passado no campo de tiro da Unidade, com a apresentação de vários tipos de explosivos, minas e armadilhas, com cargas diversas.
No dia 6 decorreu nas margens do Douro a manobra expedita de atravessar cursos de água, culminando com a transposição de um Geep Willys de uma margem para outra, por meio de jangada improvisada.
O dia 7 foi dedicado à acção de emboscada: estudo, concepção, escolha do terreno propício para instalação da operação e sobretudo a reacção às emboscadas do inimigo.
No dia 8 teve lugar a prática de tiro instintivo de FBP e Parabellum.
Finalmente no dia 9 teoria sobre Golpe de Mão, e Cêrco e Limpeza de uma Povoação, que terminou com a observação desta última acção, realizada por um Pelotão de Caçadores Especiais.
E pronto estavam preparados os quadros do BC 114: "AD OMNIA PARATI"
A Companhia de Caçadores Especiais, (vulgo, Rangers), ali criada e a que já me referi, exibia com alguma exuberância a sua preparação técnico-táctica para intervir em teatro de guerra subversiva e de guerrilha instalada, baseada em conhecimentos que os observadores militares portugueses haviam obtido na Guerra da Argélia.
Os cinco dias úteis de instrução a que os quadros do Batalhão de Caçadores 114 foram submetidos naquela unidade, não foram mais do que tomar conhecimento de uma nova maneira de abordar o fenómeno da guerra: Gustavo, Leopoldo, Napoleão, Eisenhauer, Montegomery e o próprio Romel, já foram. Quem dá cartas agora são os beduinos do deserto e sobretudo os Giaps no Vietnam.
Foi neste ambiente e com teorias destas que passámos o dia 4, assistindo a palestras e exibição de filmes a propósito.
O dia 5 foi passado no campo de tiro da Unidade, com a apresentação de vários tipos de explosivos, minas e armadilhas, com cargas diversas.
No dia 6 decorreu nas margens do Douro a manobra expedita de atravessar cursos de água, culminando com a transposição de um Geep Willys de uma margem para outra, por meio de jangada improvisada.
O dia 7 foi dedicado à acção de emboscada: estudo, concepção, escolha do terreno propício para instalação da operação e sobretudo a reacção às emboscadas do inimigo.
No dia 8 teve lugar a prática de tiro instintivo de FBP e Parabellum.
Finalmente no dia 9 teoria sobre Golpe de Mão, e Cêrco e Limpeza de uma Povoação, que terminou com a observação desta última acção, realizada por um Pelotão de Caçadores Especiais.
E pronto estavam preparados os quadros do BC 114: "AD OMNIA PARATI"
domingo, 4 de maio de 2008
Tentativa de preparação acelerada para a guerra
Enquanto nas paradas decorria a instrução, as instalações sonoras chamavam às secretarias, um após outro e pelos respectivos nomes, os jovens instrutores que iam sendo nomeados para ir enquadrar companhias de soldados “prontos”, noutras unidades.
A preparação para a guerra era nula, pelo menos para o tipo de guerra que se previa. Por isso foi necessário fazer um simulacro de preparação de quadros, em Lamego, única unidade onde era possível teorizar e exemplificar algumas das acções mais significativas da guerrilha.
Esta qualificação da Unidade de Lamego deveu-se ao facto de 4 anos antes o Secretário de Estado do Exército, Tenente Coronel Costa Gomes, ter ali criado uma Companhia de Caçadores Especiais, (os rangers), que foi o fermento para a acelerada preparação dos quadros das unidades e subunidades a mobilizar.
Foi assim que no dia 3 de Maio de 1961, os quadros, (quase todos ainda aspirantes, uns a oficial e outros a sargento, pois de milicianos se tratava), se apresentaram em Lamego, depois de uma viagem, para alguns idílica, pelo Vale do Vouga, naquele comboiozinho matreiro que serpenteava, paralelo ao rio, até São Pedro do Sul. Dali, em autocarro, sobe--se até ao planalto penhascoso de Castro Daire e depois a descida para a Régua.
Em Lamego encontram-se todos os quadros do Batalhão 114 (Companhias: CCS, CC115, CC116 e CC117), desde o Tenente Coronel Comandante do Batalhão até ao último Cabo Miliciano. Este, quando embarcar, será promovido a Furriel, como todos os milicianos aos respectivos postos imediatos.
No dia 4 começou a instrução: explosivos, armadilhas, minas, transposição de cursos de água, emboscadas, golpes de mão, cerco e limpeza de povoações, tiro instintivo, sobrevivência em clima tropical, enfim: uma larga panóplia de assuntos, despejada em seis dias, que daria matéria para seis meses de instrução, se se quisesse fazer bons combatentes e se houvesse tempo para tal.
Mas o "Chefe" havia decretado urgência: "Para Angola rápidamente e em força!"
A preparação para a guerra era nula, pelo menos para o tipo de guerra que se previa. Por isso foi necessário fazer um simulacro de preparação de quadros, em Lamego, única unidade onde era possível teorizar e exemplificar algumas das acções mais significativas da guerrilha.
Esta qualificação da Unidade de Lamego deveu-se ao facto de 4 anos antes o Secretário de Estado do Exército, Tenente Coronel Costa Gomes, ter ali criado uma Companhia de Caçadores Especiais, (os rangers), que foi o fermento para a acelerada preparação dos quadros das unidades e subunidades a mobilizar.
Foi assim que no dia 3 de Maio de 1961, os quadros, (quase todos ainda aspirantes, uns a oficial e outros a sargento, pois de milicianos se tratava), se apresentaram em Lamego, depois de uma viagem, para alguns idílica, pelo Vale do Vouga, naquele comboiozinho matreiro que serpenteava, paralelo ao rio, até São Pedro do Sul. Dali, em autocarro, sobe--se até ao planalto penhascoso de Castro Daire e depois a descida para a Régua.
Em Lamego encontram-se todos os quadros do Batalhão 114 (Companhias: CCS, CC115, CC116 e CC117), desde o Tenente Coronel Comandante do Batalhão até ao último Cabo Miliciano. Este, quando embarcar, será promovido a Furriel, como todos os milicianos aos respectivos postos imediatos.
No dia 4 começou a instrução: explosivos, armadilhas, minas, transposição de cursos de água, emboscadas, golpes de mão, cerco e limpeza de povoações, tiro instintivo, sobrevivência em clima tropical, enfim: uma larga panóplia de assuntos, despejada em seis dias, que daria matéria para seis meses de instrução, se se quisesse fazer bons combatentes e se houvesse tempo para tal.
Mas o "Chefe" havia decretado urgência: "Para Angola rápidamente e em força!"
sexta-feira, 2 de maio de 2008
A minha mobilização - 2 de Maio de 1961
Seriam uma dez horas da manhã de 2 de Maio de 1961 quando, decorrendo a instrução de toda a escola de recrutas, em plena parada do RI 3, Beja, se começaram a ouvir, pela instalação sonora ali existente, os nomes dos Aspirantes a Oficial instrutores que naquele dia foram mobilizados para a guerra. Entre esses foi chamado tambem à secretaria da Unidade este escriba de blogs, que ali tomou conhecimento de que havia sido mobilizado para integrar uma Companhia de Caçadores a constituir na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, sendo-lhe entregue, de imediato, guia de marcha para aquela Unidade Escolar de Infantaria.
Naqueles momentos que se seguiram, a avalanche de hipóteses sobre o que futuramente iria acontecer era tão grande, que não é possível agora concretizar ou reconstituir o que se passou naquelas cabeças jovens que apenas sabiam que tinham de se apresentar no destino no mais curto prazo de tempo.
Marchei pois, nesse mesmo dia para Mafra.
Naqueles momentos que se seguiram, a avalanche de hipóteses sobre o que futuramente iria acontecer era tão grande, que não é possível agora concretizar ou reconstituir o que se passou naquelas cabeças jovens que apenas sabiam que tinham de se apresentar no destino no mais curto prazo de tempo.
Marchei pois, nesse mesmo dia para Mafra.
Maio de 1961
O ambiente socio-político que se vivia em Portugal ao entrar o mês de Maio de 1961 era de grande preocupação pelo que se passava em Angola, onde movimentos separatistas haviam dado início a acções de terror, cuja dimensão e alcance não estavam bem definidos.
À indiferença política demonstrada pelo governo, respondera o Ministro da Defesa, General Botelho Moniz, com uma tentativa de golpe de estado, em Abril, mas “oportunamente” demitido pelo Primeiro Ministro que assumiu a pasta da defesa, chamando a si os louros da decisão inevitável de intervir militarmente em Angola.
Neste contexto Salazar falando à Nação no Terreiro do Paço em ambiente de grande emotividade, decretou a mobilização:
"Para Angola rapidamente e em força!".
Nos quartéis decorria a primeira grande incorporação de recrutas, em preparação acelerada, com vista à mobilização.
À indiferença política demonstrada pelo governo, respondera o Ministro da Defesa, General Botelho Moniz, com uma tentativa de golpe de estado, em Abril, mas “oportunamente” demitido pelo Primeiro Ministro que assumiu a pasta da defesa, chamando a si os louros da decisão inevitável de intervir militarmente em Angola.
Neste contexto Salazar falando à Nação no Terreiro do Paço em ambiente de grande emotividade, decretou a mobilização:
"Para Angola rapidamente e em força!".
Nos quartéis decorria a primeira grande incorporação de recrutas, em preparação acelerada, com vista à mobilização.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
1º de Maio de 1961
O dia 1 de Maio, hoje Dia do Trabalhador, em 1961 era um dia de repressão sobre os opositores ao regime, nomeadamente os membros do Partido Comunista, então na clandestinidade. Alguns dias antes, a polícia política procedia a detenções, ditas preventivas, dos principais e mais conhecidos activistas políticos e sindicais.
Nos quarteis, essa segunda feira, foi mais um dia de instrução intensiva nas escolas de recrutas. No RI 3, em Beja, onde me encontrava, a vida decorria com aparente normalidade. Digo aparente porque não era assim tão normal: Já tinham começado as mobilizações - três oficiais milicianos já tinham marchado para unidades mobilizadoras e na Messe de Oficiais e respectiva sala de convívio, passavam-se coisas estranhas desde há vários dias - Os oficiais superiores do QP desdobravam-se em reuniões, retirados dos milicianos que nada sabiam do que se passava.
A "ABRILADA" havia abortado, Costa Gomes, um dos principais conspiradores havia sido colocado precisamente o RI 3, mas tudo isso nos passava ao lado: os milicianos tambem eram apenas carne para canhão e não tinham acesso aos segredos dos espíritos iluminados.
Nos quarteis, essa segunda feira, foi mais um dia de instrução intensiva nas escolas de recrutas. No RI 3, em Beja, onde me encontrava, a vida decorria com aparente normalidade. Digo aparente porque não era assim tão normal: Já tinham começado as mobilizações - três oficiais milicianos já tinham marchado para unidades mobilizadoras e na Messe de Oficiais e respectiva sala de convívio, passavam-se coisas estranhas desde há vários dias - Os oficiais superiores do QP desdobravam-se em reuniões, retirados dos milicianos que nada sabiam do que se passava.
A "ABRILADA" havia abortado, Costa Gomes, um dos principais conspiradores havia sido colocado precisamente o RI 3, mas tudo isso nos passava ao lado: os milicianos tambem eram apenas carne para canhão e não tinham acesso aos segredos dos espíritos iluminados.
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