domingo, 6 de julho de 2008

CC 115 - Ponte do Lifune


Mapa da região Mabubas-Anapasso: A picada, hoje nítida, não se veria nestas circunstâncias, se houvesse google em 1961.

Primeira Patrulha de Reconhecimento à Ponte de Anapasso


Faz hoje precisamente 47 anos! Os preparativos para dar início à Operação Viriato exigiam a reconstrução da ponte destruìda pelo In em Anapasso, sobre o Rio Lifune.

De Mabubas para norte pela picada que conduz a Quicabo, há mais de três meses que ninguém se atrevia a passar, o que permitiu aos elementos da UPA destruir a ponte sobre o Rio Lifune, uma obra de arte de algum vulto uma vez que o rio ali já é bastante largo.

O 3º Pelotão da CC 115, comandado por NOCA, (Nobre Campos), reforçado com uma secção de sapadores, recebeu a missão de explorar e abrir a picada até Anapasso, escoltando o Engenheiro, Tenente Varela, este para analisar e projectar a reconstrução da Ponte.

Anapasso dista cerca de 18 kilómetros de Mabubas. A picada tinha um piso relativamente bom, mas o capim crescera muito e, em alguns troços já não se via a picada. Lá íamos apalpando o terreno e avançando devagar. Havia várias abatizes, (árvores atravessadas na picada para impedir a passagem de viaturas), que se foram removendo com alguma facilidade por serem de pequeno porte, uma vez que a mata naquela região é de tipo savana com grandes embondeiros dispersos, mas esses não são práticos para fazer abatizes.

Chegada a Anapasso a Patrulha deparou com a Ponte completamente destruída: dos seus dois tramos maiores um estava no leito do rio e o outro desprendera-se de um dos apoios, ruindo também. Os destroços da ponte permitiam a passagem a pé de uma margem para outra.
A destruição da ponte fora conseguida por meio de água e fogo, ou melhor, fogo e água: fizeram grandes fogueiras sobre o taboleiro da ponte e de seguida, lançaram água, provocando a fractura e deslocamentos da estrutura de cimento. Havia vestígios dos materiais utilizados nesse sentido.

Próximo da ponte e na margem esquerda do rio o In erguera uma grande tabuleta constiuída por duas grandes tábuas, com os dizeres :"DAQUI PARA DIANTE NÃO PASSA PÉ DE BRANCO" e " TUDO O QUE PASSA MORRE".

Enquanto uma parte da força mantinha a segurança periférica para permitir ao Engenheiro Varela fazer as suas análises e estudos da obra de arte, outra parte dedicou-se à exploração dos arredores, dando de imediato com uma Fazenda, denominada de "Maria Amélia" e que consistia num imenso pomar de laranjeiras, com fruta capaz de ser colhida. Isto foi motivo de regozijo e, dada a escassez de meios disponíveis, fez-se uma boa colheita que muito alegrou depois o vago-mestre da Companhia.

Ao fim do dia, cumprida a missão, o 3º Pelotão da CC 115 regressou ao acantonamento, no Caxito.

sábado, 5 de julho de 2008

CC 115 - BEM A PROPÓSITO

Recebi do Camarada VALHOR um simpático e interessante e-mail que não resisto a publicar aqui:
"O trabalho de qualidade continua!Nada será como dantes (novo quartel em Abrantes!!!...)
-Dos nossos companheiros 115 "rien du tout" Empregamos o nosso "latim" em vão. Dicas: 0 (zero)
Nem sequer o tio Sam (Bento), nem os outros sobrinhos... Não se lembram de quem trabalha!!! Estão numa fase de inibição progressiva...Pelo menos que incentivassem com umas tretas quaisquer... que dissessem Amen! Que: Sim Senhor..."Tal e qual se passou... para dar força...mas (rien de rien)
Nem ........., nem .......... Afinal o que é feito deles?Não admira que os "Miquelina" tenham apanhado o tecido todo e terem cortado por onde muito bem entenderam!!!Enfin!Dia, após dia, a obra vai crescendo!Um abraçoValhor"

quinta-feira, 3 de julho de 2008

CC 115 - Caxito (Zona de Reunião)


MAPA DA REGIÃO CAXITO-MABUBAS
Terminada a prè preparação em Luanda e ainda com grandes carências de material, a CC 115 , integrando o BC 114, deslocou-se em 26 de Junho de 1961 para o Caxito, onde se acantonou num edifício já velho, que poderia ter sido uma casa "senhorial" de quinta, ou mesmo um edifício público com alguma notoriedade, isto é, era relativamente grande, mas em muito mau estado.
Os dias que se seguiram, foram de continuação da preparação com vista à intervenção operacional e ao mesmo tempo os afazeres próprios de tropa em campanha, em subunidades autónomas, com órgãos próprios para satisfazer as necessidades imediatas: alimentação, higiene, descanso e defesa da subunidade.



Durante o descanso o pessoal dedicava-se a descascar a batata para a refeição seguinte.


Com o Cabo cozinheiro (Cunha, salvo erro), e dois ajudantes de cozinheiro.
Na retaguarda vê-se o aspeto das instalações/barracões a que me referi acima.




Aqui, no Caxito ainda havia estes tanques para lavar a roupa, depois o problema será mais complicado.


Aspecto da vida social no Caxito. Uma família de alfaiates/Costureiros.


Uma Rua de bairro no Caxito: mistura de casa portuguesa, ao fundo e casas indígenas, em
primeiro plano.
Este personagem é, ou era, o José Correia de Almeida Ferreira, Prof Aux da Missão Católica.

INSTRUÇÃO E PRIMEIRO CONTACTO COM O MATO
Ali permanecemos dezassete dias, ocupando o tempo em patrulhamentos na região, para conhecimento e adaptação ao mato, bem como para reconhecimento e contactos com as populações. Os primeiros exercícios e tentativas de pôr em prática os conhecimentos teóricos adquiridos para reacção às emboscadas revelaram-se um desastre: a limpeza do terreno com formações em linha, como nos haviam dito era de todo impossível.

A densidade da vegetação era tal, que, a dois metros de distância, em pleno dia, era impossível ver o camarada do lado. Uma única formação táctica se mostrou possível: a "bicha do pirilau", isto é, a coluna por um e sempre em ligação visual.


Uma imagem vale mais que mil palavras: as fotos que antecedem dão a verdadeira imagem das dificuldades de progressão encontradas pelos militares - o capim atinge os três metros de altura e cresce por todo o lado, de modo que as picadas são invadidas por essa praga que as faz desaparecer, desde que não sejam limpas atempadamente e com frequência.
O grande inimigo aqui no Caxito eram os mosquitos. A zona tem muitas palmeiras e canais de rega para o palmar e canavial de açúcar da fazenda Tentativa, pelo que o aparecimento dos mosquitos é fatal, acrescendo ainda o calor tropical que caracteriza a região.

terça-feira, 1 de julho de 2008

CC 115 - Operação Viriato (Continuação)

A GUERRA COLONIAL... vista de dentro - I
Os escritos aqui inseridos são relatos do Senhor Coronel Libânio Pontes Miquelina, em entrevista ao jornal "Correio da Manhã" acontecida em 2007.
------------ Relatos do ex-Alferes Libânio Pontes Miquelina, da Compª. 105 do BCAÇ 96, que viveu directamente, na frente, a Guerra Colonial em Angola, pois o seu Batalhão foi o primeiro a entrar em Nambuagongo, em Agosto de 1961:* "Os combates eram duros e muito feios!" - recorda o Alferes Libânio. "Com o êxito da 'Operação Viriato', a primeira de grande dimensão nas Campanhas de África, acabou-se com o 'santuário da UPA', onde os independentistas se consideravam inexpugnáveis, apesar de alguns aviões da Força Aérea Portuguesa irem lá, de quando em quando, despejar umas bombas."* "A partir de um morro rodeado de matas diabólicas, com as picadas que lá conduziam obstruídas por árvores e muitas valas, a UPA lançava ataques a povoações próximas e mantinha sob ameaça cidades mais distantes, como Carmona, Ambriz e até mesmo Luanda. Para o Comando Militar português destruír a base tornou-se decisivo e não teve dúvidas em montar uma operação de envergadura."* " Por três itinerários diferentes, outras tantas forças militares receberam ordens para chegar a Nambuagongo. O Batalhão de Caçadores 114, comandado pelo Ten Cor. Henrique de Oliveira Rodrigues, foi o único que não conseguiu lá chegar. E o '96', do Ten. Cor. Armando Maçanita, foi o primeiro a atingir o objectivo, tendo à frente a Companhia 103 dos Alferes Santana Pereira, já falecido, e Casimiro, que também morreu em campanha."- O Coronel Libânio Miquelina teve o seu baptismo de fogo a 10 de Junho de 1961, na tomada da Pedra Verde.* " Ficámos um pouco para trás, por causa de um avião Broussard, atingido por uns tiros do inimigo e que, vendo a localidade ocupada por militares, decidiu aterrar na rua central de Muxalando, a uns 20 quilómetros de Nambuagongo. A caminhada que havia sido encetada rumo a este objectivo, durou mais de 20 dias de intensos combates, mas as dificuldades começaram numa ponte sobre o Dange, a 100 quilómetros do alvo. Quando chegámos à zona, tivemos de intervir rápido, porque descobrimos que o inimigo estava a tentar destruír a única ponte existente. Para isso faziam enormes fogueiras, com muitas árvores e ramos sobre o tabuleiro, lançando depois água para cima do mesmo para estalarem o cimento armado por efeito da mudança de temperaturas. Foi um ataque bastante difícil, porque eles já estavam armados com metralhadoras automáticas, além de "canhangulos e bazukas", enquanto no nosso Exército as melhores ferramentas para cavar abrigos eram as... baionetas das velhas espingardas Mauser. Deixei lá dois mortos e muitos feridos. "
* " Os ataques inimigos aconteciam de dia e de noite, ao meio-dia e ao meio da tarde, mas nunca se chegou ao corpo-a-corpo, de que muitas vezes se falava."
Publicada por rotivsaile em 21:02

Transcrevi acima o escrito publicado por "rotivsaile" no seu blog BATUQUES DO NEGAGE.
Porque ele refere o depoimento do Sr Coronel Miquelina, que merece algum reparo, embora seja esclarecedor do ambiente que se vivia na região dos Dembos:
Assim, estranha-se que dê tanto ênfase ao facto do BC 114 não ter chegado a Nambuangongo.
A esse propósito lembra-se que o BC 114 chegou a Luanda em 09 de Junho de 1961. No dia seguinte, 10 de Junho, como bem refere o Sr Coronel, foi o baptismo de fogo do BC 96, na região de Úcua. O dia "D" para o 96 foi portanto 10 de Junho.
Não na tomada da Pedra Verde porque tal não se verificou nessa altura, mas sim na tentativa de chegar à Pedra Verde. O BC 96 e agora sei, porque o afirma, que terá sido a Companhia do Sr Alferes Miquelina, não passou no sítio denominado "das correntes", porque ali foi travada pelo In, onde sofreu baixas e perdeu material de guerra, nomeadamente uma ML, como se soube na altura. O BC 96 não foi à Pedra Verde, nomeadamente a Quissacala que fica na base desse acidente orográfico, limitando-se a contornar por Pedra Boa, por estrada na altura alcatroada, seguiu rumo a Nambuangongo. A tomada da Pedra Verde verificou-se mais tarde, já depois de ocupada a vila de Nambuangongo, numa grande operação em que intervieram várias unidades, entre elas companhias de Pàras.
Tinha portanto o BC 96 um avanço, em tempo, relativamente ao BC 114, de mais de um mês, porque o BC 114 só ficou operacional em 11 de Julho, devido à falta de viaturas.
Mesmo assim, quando o BC 96 chegou a Nambuangongo, (Parabéns!), o BC 114 já andava por Beira Baixa, a cerca de 30 Km do objectivo e só o facto de já ter sido ocupado é que fez derivar a atenção operacional para outros objectivos, menos notórios, mas mais difíceis, como eram Canacassala e Quifula. Canacassala tinha seis mil homens recenseados, o que significa que a sua população total deveria rondar os quinze a vinte mil pessoas, agora refugiadas nas matas circundantes, onde serviam de apoio aos guerrilheiros.
Tambem diz o Sr "Alferes" Miquelina que, cito: "os ataques inimigos aconteciam de dia e de noite, ao meio-dia e ao meio da tarde, mas nunca se chegou ao corpo-a-corpo, de que muitas vezes se falava."
Sortudo o Sr Miquelina!!! Tomou a Pedra Verde e nunca entrou em luta corpo-a-corpo. Pois dir-lhe-ei que outros o fizeram, não na Pedra Verde, mas em KUANDA MAÚA, em 15 de Julho de 1961, como mais tarde referirei na primeira pessoa juntamente com outros companheiros de combate, que tenho a honra de contar entre os que comigo sobreviveram, pois ficaram no terreno seis mortos nossos e uma vintena de feridos. Felizmente não perdemos material de guerra para o inimigo e os danos que se verificaram, foram as baionetas das espingardas mauser dobradas, devido ao uso que se lhes deu. A guerra não é uma brincadeira!
Seria bom que não armássemos em heróis que não fomos. Todos fomos vítimas nos mesmos trabalhos.
O Santana Pereira e o Casimiro tiveram azar, como outros alferes que por lá ficaram. E que dizer dos outros mortos que não voltaram a ver os familiares?
Estes dois oficiais eram do quadro permanente, tal como o Sr Coronel Miquelina.
Eu não gosto de brincar com os militares, até porque tambem o sou, mas não resisto a lembrar aqui a definição de CORONEL que mais tarde, se estabeleceu no meio.
"CORONEL", é um alferes que não morreu!
Isto relativamente aos primeiros anos da guerra, em que operavam activamente em combate alguns oficiais do QP, porque, mais tarde passou a ser: um capitão que não morreu. E finalmente até os capitães eram milicianos, quase todos.
Mas enfim, não perdemos a guerra. Os políticos é que não souberam nem foram capazes de aproveitar o tempo de que dispuseram para resolver o problema com o mínimo de traumatismos.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

CC 115 - Operação Viriato



Antecedentes

A UPA havia-se instalado no chamado “Reino de Nambuangongo”, cuja fronteira Sul era definida pelo Rio Lifune, depois de destruída a Ponte sobre o mesmo rio, em Anapasso. O aparecimento nos meios internacionais da notícia da existência do “REINO DE NAMBUANGONGO”, provocou em Luanda e Lisboa grande perturbação ao nível mais alto do poder político, devido ao impacto que tal notícia provocava nos areópagos internacionais, nomeadamente nas Nações Unidas.

Em consequência o Comando Chefe ordenou a imediata ocupação de Nambuangongo e os estrategas começaram a delinear as tácticas e as manobras operacionais, no sentido de conseguir o desiderato do poder político. Foi assim estabelecido um plano de ocupação de Nambuangongo, (OPERAÇÃO VIRIATO), que seria conseguida do seguinte modo: 3 forças autónomas avançariam sobre Nambuangongo por 3 itinerários convergentes naquela povoação, a saber: a primeira,(BC 114), com base na região de Caxito/Mabubas, avançaria por Anapasso, Quicabo, Balacende, Quissacala, Beira Baixa, Bela Vista, Onzo, Nambuangongo; a segunda, (BC 96), com base em Úcua e contornando a célebre Pedra Verde, avançaria por Pedra Boa, Quibaxe, Quitexe, Mucondo, Muchaluando, Onzo, Nambuangongo; a terceira,(CC 158+), com base na região de Ambriz, avançaria na direcção nascente por Zala, Onzo, Nambuangongo.

Deslocamento para as zonas de reunião
Em 8/9 de Junho o BC 96 deixara Luanda, indo sedear-se na região de Úcua, onde levou a efeito algumas operações iniciais de exploração da zona. Numa tentativa de se aproximar da Pedra Verde, (a mítica Pedra Verde, onde se dizia que existiam galerias subterrâneas, para abrigo dos "terroristas"), ao atingir o local denominado por "as correntes", por ali existirem dois grandes pilares em cimento, ladeando a picada, e ligados por grossas correntes de ferro, o seu avanço foi travado por forte resistência inimiga que lhe causou baixas significativas, perdendo mesmo algum armamento para o inimigo. Estas "correntes" numa picada em plena floresta, tem uma estória , no mínimo, curiosa. Os senhores de Úcua eram os famosos Cunha e Irmão, grandes produtores de cisal, extração de madeiras e detentores de grandes plantações de café, de que sobressaía a Fazenda QUIBABA, de que falaremos mais tarde. Em Quissacala da Pedra Verde existiam muitos autóctones produtores de café com grande sucesso e que já dispunham de viaturas automóveis. A picada que servia Quissacala atravessava parte da Fazenda Quibaba (produtora de madeira e café) e isso desagradava a "Cunha & Irmão". Estes resolveram impedir a passagem a viaturas, colocando as tais correntes.
O certo é que o BC 96(+) não entrou e teve de contornar por Pedro Boa (estrada asfaltada) e seguir por Muxaluando rumo a Nambuangongo.

Na região do Ambriz estava tambem constituída uma unidade de combate: A Companhia de Cavalaria 158, reforçada com armas pesadas e sapadores, (CC 158+), a qual de oeste para leste rumou tambem ao objectivo, Nambuangongo.

Entretanto O BC 114, fazia os preparativos em Luanda e em 26 de Junho dava início ao deslocamento para a sua zona de reunião em Mabubas e Caxito.
Por não existirem viaturas suficientes o deslocamento foi feito em regime de vai e vem, decorrendo a operação três dias: em 28 estava finalizada e as companhias 116 e 117 acantonaram nas Mabubas, junto do Comando do Batalhão e a CC 115 acantonou no Caxito, nuns casarões de quinta já antigos.

Nota: Vidè mapa supra com a indicação das unidades e sua localização.

domingo, 15 de junho de 2008

CC 115 -Luanda de 09 a 26 de Junho de 1961

Ambiente Físico e Social em Luanda



Luanda era uma cidade em franco progresso devido à influência da exportação de café, produzido sobretudo no norte de Angola: apresentava já algumas avenidas bem delineadas e viam-se construções de prédios por todo o lado.
Só que os acontecimentos dos últimos meses, desde 4 de Fevereiro e sobretudo de 16 de Março, tinham paralizado completamente a actividade económica e as populações branca e negra, até há pouco convivendo e relacionando-se com naturalidade, estavam agora separadas por um ódio recíproco que os impedia de se relacionar e conviver uns com os outros, por temor e desconfiança. Aos atos de terror nas Fazendas do Norte, levados a efeito pela UPA, sobre brancos e negros, (bailundos), trabalhadores contratados na região do Bailundo para a safra do café, seguiram-se as represálias por todos os meios e os musseques de Luanda foram campo fértil de atrocidades, agora cometidas por brancos armados e organizados em milícias ad hoc.
Por isto tudo a cidade parecia uma cidade fantasma, sobretudo a partir do fim da tarde, em que alguns negros de mais confiança ou mais afoitos recolhiam aos musseques, regressando do trabalho doméstico. Frequentemente se ouviam tiros de arma de guerra.
Com a presença da tropa a confiança das populações quer branca quer negra, começou a regressar e, quando saimos para o Caxito em 26 de Junho, o clima já era bem diferente: o convívio entre etnias foi retomado e as obras e trabalhos na cidade recomeçaram,regressando ao ritmo normal.
CC 115 - Operacionalidade e Preparação para a Intervenção
O material que ía chegando ao cais de Luanda vindo de Lisboa, era atribuído às subunidades a que se destinava e a CC 115 tambem recebeu o seu.
Segundo o relatório oficial, "o material destinado à 115 vinha em péssimo estado, sobretudo os equipamentos e espingardas, tendo estas sido substituídas por outras, igualmente "mauser", mas de modêlo mais recente, que estavam no Liceu e pertenciam à Província". Havia metralhadoras com percutores partidos e outras com "faltas oficiais" no seu completo.
Relativamente a viaturas, vinham com aspecto bom, mas cedo se verificou que eram viaturas com muito uso vindo este aspecto a revelar-se um dos mais difíceis de resolver e que mais problemas causou durante a campanha, quer no reabastecimento, quer nas operações de combate propriamente ditas.
À CC 115 foram atribuídas uma cozinha rodada, carro de água, viatura de transportes gerais, dois ou três jeeps Willys de 1/4 Ton e 4 ou 5 jeepões Dodge de 3/4 Ton.

Duas cozinhas rodadas, do modêlo que foi atribuído à CC 115

Atrelado de água, rebocado por jeep de 1/4 de Ton

Carro sanitário

Atrelado sanitário



Três viaturas iguais às que foram atribuídas à CC 115: jeep de 1/4 Ton, jeepão Dodge de 3/4 Ton e viatura de transportes gerais. Todas estas viaturas rebocam os respectivos atrelados.

Não havia viaturas em número suficiente para deslocar a Companhia e ao nível do Batalhão o problema era o mesmo. Foi necessário recorrer a viaturas emprestadas pela Guarnição normal de Luanda e recorrer a viaturas civis alugadas, quando foi da deslocação do Batalhão para a zona de Caxito-Mabubas e mesmo assim, ainda houve que recorrer ao sistema de vai-vem, isto é as viaturas que levavam uma companhia voltavam atràs para transportar outra, até que todo o Batalhão estivesse na área pretendida.

CC 115 - Instrução e operacionalidade das tropas
Durante o período passado em Luanda a instrução do pessoal consistiu especialmente na preparação física e mental, (motivação anímica e desenvolvimento do espírito de corpo), e no aperfeiçoamento de técnica de tiro, sobretudo numa modalidade nova que parecia a mais adequada ao ambiente esperado, o tiro à caçador ou tiro instintivo. Isto porque se previa a necessidade de fazer tiro em ambientes muito restritos e limitados, devido à grande densidade da floresta.
Por estes motivos, tambem nos deslocamentos, que se previam longos e frequentes, a tática a adotar trazia novidades: a reação rápida a uma emboscada poderia não ser a de saltar das viaturas, mas sim a execução de fogo imediatamente a partir das próprias viaturas, o que revelava uma vulnerabilidade imediata devido à exposição dos combatentes, de peito aberto sobre as mesmas
Concluiu-se daí a necessidade de obter uma proteção mínima, mas imediata, ainda sobre as viaturas. Isso significava blindagem, mas as viaturas eram ligeiras e sem qualquer proteção nesse sentido. Por outro lado não havia materiais disponíveis e adequados para o efeito. Depois de alguma discussão sobre o tema, foi decidido improvisar blindagens com chapas de bidons de 200 litros abertos e colocadas nas viaturas lateralmente, fazendo uma espécie de caixa que se enchia de areia ou terra vulgar. Esta artimanha tinha o inconveniente de sobrecarragar as viaturas, limitando-lhes as capacidades de carga e manobra, mas oferecia alguma proteção contra tiros tensos e de proximidade, sobretudo de canhangulos. O condutor, elemento especialmente visado pelo In, (inimigo), era protegido lateralmente por uma chapa de ferro de 2 ou 3 mm. A segurança oferecida era mais psicológica do que real e, por isso, a parte traseira da viatura ficava aberta e sem qualquer obstáculo para permitir o abandono desta o mais rápidamente possível. Como uma imagem vale mais do que mil palavras, segue-se uma foto da viatura da 1ª Secção de atiradores do 3º Pelotão, em ordem de marcha, tirada no dia 14 de Julho, à saída de Mabubas, rumo a Quicabo.



Quanto à operacionalidade das tropas e sua preparação remota fora muito deficiente, atendedendo sobretudo ao facto de muios dos militares serem oriundos dos serviços e não de unidades operacionais. O relatório oficial refere mesmo um caso de uma companhia cujo pessoal, após um ligeiro exercício de ocupação e organização do terreno em posição defensiva, depois de fazer alguns pequenos abrigos, ficou completamente exausto.



Diz ainda o referido relatório: "Algum tempo depois da estadia na região de CAXITO - MABUBAS, o Comando concluiu que, das CCaç, a melhor preparada, física e técnicamente, era a CCaç 115 e que, embora o moral geral fosse muito bom, era, também a 115 a mais entusiasta."



A avaliar pelo aspecto revelado pela foto supra da 1ª Secção do 3º Pel da CC 115, parece que a referida conclusão do Comando estava bem fundamentada.

Outro aspecto a que foi dada muita atenção, no que se refere à instrução, foram as transmissões.






Sobre este assunto dou a palavra ao Camarada Valadas Horta, um expert na matéria e que conta na primeira pessoa a sua experiência:
A Equipa das Trasmissões da "115"
Constituição:Chefe – 2º. Sargento Martins;Radiotelegrafistas:1ºs. Cabos: 2199/60, Ribeiro; 2202/60, Xavier; 2200/60, Horta; 2201/60, Correia.Soldados: 2203/60, Pereira; 1455/60,Garcia; 12/60, Lemos; 2204/60, Silva.Cifrador:1º. Cabo 20/60, Sá. A codificação de mensagens estava a seu cargo. Elemento discreto, metódico de qualidades pessoais de educação e sociabilidade destacáveis.Nota: A equipa das transmissões da “115” criou dentro de si um vínculo de amizade e de solidariedade muito forte. O seu trabalho também concorreu para o prestígio alcançado pela “115”.∞No Caxito, os radiotelegrafistas da CC 115 receberam instrução dos equipamentos de transmissões com que iriam trabalhar, do diagrama de redes e indicativos de chamada, da autenticação das mensagens e, de um modo geral, das regras e procedimentos de uma rede rádio.Ficamos a conhecer os equipamentos atribuídos à Companhia:O E/R ANGRC-9, normalmente instalado em local fixo ou em viaturas. Por vezes, em operações apeadas era transportado às costas. O seu completo em termos de acessórios, era composto por uma enorme Unidade de Alimentação, um Gerador Manual, a respectiva antena, chave de morse, micro, auscultadores, etc., mobilizando quase sempre duas ou três pessoas no seu transporte. Este equipamento, a trabalhar em HF, cujo comportamento do sinal de emissão atinge e se reflecte nas altas camadas atmosféricas, era um óptimo equipamento desde que fosse devidamente sintonizado e fossem seleccionadas as frequências diurnas e nocturnas. A antena horizontal deste equipamento estava preparada e aferida tendo em conta a frequência em que se pretendesse trabalhar. Devidamente instalado, cobria todo o território de Angola, nomeadamente em grafia (morse);O E/R PRC-10 que estabelecia o contacto com os aviões no teatro de operações (não cobria grandes distâncias);O E/R CPRC-26?, portátil, apenas funcionava em linha de vista e a curta distância (tipo de comunicação que segue a curvatura da Terra – VHF)Foi ainda no Caxito que demos início à instalação de antenas verticais não verdadeiras (pedaços de verguinha de aço, utilizado no betão armado) em todas as viaturas da Companhia, a fim de evitar que as viaturas onde se encontravam instalados os meios de transmissões fossem referenciadas pelo IN (Inimigo como era considerado na altura).
No Caxito havia muitos mosquitos. A zona tem muitas palmeiras e canais de rega para o palmar e canavial de açúcar da Fazenda Tentativa, pelo que o aparecimento das "melgas" é inevitável, acrescendo ainda o calor tropical que caracteriza a região. Na Fazenda Tentativa, a cana era moída, transportava-se o sumo às caldeiras, onde era cozido e recozido, escumado e lavado, até se pôr nas formas a coalhar; na casa das fornalhas, o calor, a fumaça, o negrume, davam espanto a quem, alheio àquela espécie de trabalho, por curiosidade o contemplava. Só que, devido aos factores referidos, os mosquitos na zona do Caxito apoquentavam de tal ordem que eu fui parar à enfermaria onde levei uma injecção anti-inflamatória (penso que terá sido a última injecção dada pelo furriel enfermeiro Loureiro que faleceria em combate na emboscada de Quanda-Maúa, dias depois).



SEgue-se uma foto da epuipa de radiotelegrafistas das CC 115

segunda-feira, 9 de junho de 2008

CC 115 - Instalação provisória em Luanda



O destino das tropas expedicionárias não era Luanda, mas sim a região norte de Angola, onde os acontecimentos estavam tomando aspectos mais trágicos. Por isso a permanência na cidade foi provisória e passageira, apenas para dar tempo aos necessários preparativos de uma campanha de que não se conheciam bem os contornos, quer em dificuldade, quer em duração.

A CC 115 ficou acantonada num edifício ainda em obras de acabamento e que se destinava a acolher o Liceu Feminino de Luanda, quando estivesse pronto, o que se veio a confirmar posteriormente.
A este propósito diz o Relatório Oficial: "(1) Após o desfile, as tropas foram transportadas em camionetas, pelas ruas da cidade, para as instalações, ainda incompletamente construídas, do Liceu Feminino de Luanda.
Nas vésperas o Liceu fora abandonado pelo BC 96, ficando as CC 107 e 108, que vieram a sair poucos dias depois.
(2)Procedeu-se à distribuição do pessoal pelos alojamentos que, satisfazendo bem, do ponto de vista do arejamento, dispunham de algumas camas para o pessoal."
Deste relatório se conclui que muitos militares não tinham cama e o chão era o melhor que tinham, alem do ar, (bom arejamento), que era de graça...